Duas festas
Luis Fernando Verissimo
Escrevendo numa revista The Nation recente sobre a crescente distância entre ricos e pobres nos Estados Unidos, o jornalista Doug Henwood resumiu sua tese sobre as diferenças entre a velha e a nova elite capitalista americana na descrição de duas festas, uma em 1897, durante o que ficou conhecida como a Era Dourada do capitalismo empreendedor no país, e uma em 2007, no que já está sendo chamada da Era Dourada do capitalismo rentista mundial. A comparação é educativa.
A primeira festa foi um baile de máscaras oferecido pelo advogado corporativo Bradley Martin e sua mulher, Cordelia, no hotel Waldorf de Nova Iorque em que o financeiro J. P. Morgan apareceu vestido de Molière, John Jacob Astor foi de Henri de Navarre com uma espada cravejada de brilhantes e nada menos que 50 mulheres se fantasiaram de Marie Antonieta. A segunda festa foi de aniversário do empresário Steve Schwarzman, realizada em fevereiro do ano passado num antigo depósito de armas da Park Avenue, não longe do hotel Waldorf.
O depósito de armas tinha sido erguido no século 19 com capital privado para um regimento da Guarda Nacional formado principalmente por jovens da elite nova-iorquina, que uma vez por outra ajudavam a dispersar grevistas. Era uma fortaleza construída para enfrentar o nascente movimento sindical, populistas rurais, socialista urbanos e outros radicais - o que na França pré-revolução chamavam de "a classe perigosa" - que inquietavam os ricos da época. Schwarzman encheu o antigo depósito com centenas de amigos e tratou-os muito bem. Rod Stewart ganhou um milhão de dólares para cantar na festa durante meia hora, segundo Henwood.
Preocupado com a reação de "elementos socialistas" da cidade, Martin mandou cercar o hotel Waldorf com guardas da notória empresa de segurança Pinkerton, que durante muitos anos foi sinónimo da violência contra grevistas e manifestações populares nos Estados Unidos, e mandou fechar com tábuas as janelas do primeiro andar. Schwarzman só teve que se preocupar com o cerco dos paparazzi - nenhum, que se saiba, com tendências socialistas - aos seus convidados. Depois da sua festa, Bradley e Cordelia foram alvos de tantas críticas pelos seus excessos que se auto-exilaram na Europa. Depois da sua festa, Schwarzman ouviu algumas gozações, e perguntas impertinentes sobre os baixos impostos pagos por empresas que gerenciam investimentos privados, como a sua Blackstone, mas continua em Nova Iorque, morando no gigantesco apartamento que um dia pertenceu a John D. Rockefeller Jr. Ninguém da classe perigosa se manifestou.
As 50 Marias Antonietas e os outros mascarados da festa de Martin eram uma aristocracia do dinheiro tentando ser nobreza, imitando o modelo pré-revolução de ostentação europeu porque não havia outro modo de se representar como elite em contraste com a massa. Era o único antecedente histórico de riqueza ilimitada e fausto à mão. Na festa do Schwarzman nem a gravata era de rigor, quanto mais as perucas. O estilo informal americano é hoje o modelo de ostentação para o mundo, porque o volume de riqueza que empresas como a de Schwarzman movimentam não tem antecedente histórico. E esta é a diferença que Henwood, no final, destaca.
Com todo o seu ridículo e suas pretensões aristocráticas, a elite de 1897 tinha acabado de montar a infraestrutura, as usinas de aço e as ferrovias transcontinentais que, por bem e principalmente por mal - os empreendedores da época não eram chamados de "robber barons", ou barões da falcatrua, por nada - impulsionaram o crescimento do país, e enriqueceram construindo uma república industrial. Enquanto isto, Schwarzman e seus colegas de ramo ficaram super-ricos manipulando o capital financeiro dos outros, construindo uma abstração que se alimenta de si própria e não deixa nada de concreto, salvo, talvez, alguns caroços de azeitona e outras sobras das festas, no mundo. E não tem nem o bom-gosto de convidar alguém melhor do que o Rod Stewart para cantar.
Domingo, 7 de setembro de 2008.
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